domingo, 27 de novembro de 2016

Eu estou aqui

De tempos em tempos, tudo parece mudar.

As coisas mudam, os lugares, a vida, o ar, o clima, tudo muda, transformando nosso Universo em uma corrente sem volta, um mundo onde a transformação é inevitável.

As águas do mar, os rios, o que mais belo tem em tudo isso?

As ruínas de uma antiga cidade, as coisas da vida, os animais indefesos, uma profusão que acarreta danos, dilui, soma, subtrai, uma "bagunça" infinita que temos que arrumar.



Mas o materialismo, somando-se com o capitalismo, tudo isso gera tudo isso...

Minha Mãe se foi, meu Pai também, vivo só, mas nunca na escuridão.

Os transeuntes passam, não me notam, não me veem, mas será porque?

Será que é só porque estou sem status ou fama?

Será que é porque estou sem emprego ou com roupas inadequadas para um "andarilho" faminto que vaga pensando que o dia de amanhã será melhor?



Mas, melhor de que jeito?

O que muda amanhã?

Meu passado não existe e meu futuro é incerto.

As coisas não vão bem, sonho demais e vivo o mundo real muito pouco.

Os sonhos alimentam o espírito e tornam possíveis as lágrimas de alegria.

Lágrimas de alegria são doces, lágrimas de agonia são amargas.



O frio noturno e a solidão não me incomodam mais, as dores em todo o corpo já não são tão importantes.

Os pensamentos maus, as imagens de tempos ruins deixaram de existir.

Todo o tempo é ruim, então nada importa, o interesse por tudo já não interessa.

Os produtos anunciados nos Out Doors já não fascinam mais.

O calor e o frio já não machucam, a solidão não perturba mais.

Somente o vento gelado da madrugada me consola, quando há Lua, contemplo sua beleza, quando há escuridão, apenas observo.



Quando é que tudo isso acaba?

Quando termina a agonia e o sofrimento?

Mundo espiritual, Deus, essas coisas, não fazem mais sentido.

A esperança deixou de ficar comigo há muito tempo.

Os sonhos de dias melhores alimentam e me fazem esquecer da fome, do frio e do ódio de nunca ser "ajudado", mas gostaria de ajuda, nada de caridade, gostaria que me dessem a possibilidade de erguer e seguir meu destino.

Mas como cidadão, nem sei se sou cidadão, quando aparece uma dor em meu corpo frio, gelado pelo tempo, fico sentado, aguardando o que provavelmente irá acontecer...

Mas até agora, nada aconteceu de mais, a dor foi embora e eu fiquei.

Os sentimentos de um cadáver indigente deve ser muito parecido com o meu, um corpo que jaz, uma vida de sonhos que nunca foi realizada, a maldade humana interrompeu a vontade de ser alguém.

Muitas pessoas estão iguais a mim ou pior, muitos se veem obrigados a fazer algo que jamais sonhava fazer, com isso, os recursos financeiros ficam melhores, o roubo e a trapaça são sintomas de quem não tem nada a perder, tudo isso por um punhado de comida e se sobrar algo mais, um lugar quente para dormir.



O que é irônico, a distribuição de renda mal feita, enquanto uns gastam dezenas de milhares de dinheiro em "paintball" ou outros programas de diversão, passam por pessoas necessitadas e nem sequer pensam em ajudá-las.

O que mais falta acontecer?

As pessoas, quando veem um semelhante sofrendo, dá a impressão de que gostam de ver tudo aquilo, se sentem bem.

Meus pensamentos se misturam com o sonhos do presente e do passado.

A ilusão é a melhor maneira de alimentar a dor da perda, as pessoas não respeitam quem não tem nada a oferecer, em termos de Poder Aquisitivos...

Quem tem tem, quem não tem perde.

As frutas, os alimentos, são somente ao acaso, talvez encontre no lixo, talvez um bom cidadão consiga pra mim.

Os bons cidadãos não estão interessados em me erguer, apenas me deixam ali, impossibilitado de subir um degrau a mais.

Mesmo assim, luto por dias melhores, mesmo sabendo que será impossível, sair do buraco do esquecimento e começar a andar em locais onde o respeito é fundamental.



Sem dinheiro, sem moral e sem respeito, é isso que eu sou, pois sem dinheiro não posso opinar, não posso ter a palavra final, não posso dar uma sugestão, não sou visto por ninguém, não sou visado por grandes autoridades, nada de moral, nada de nada.

Mas o que é isso?

Será que eu estou louco?

Não tenho roupas limpas, meu colchão está mais duro e frio que o chão, o banho não é mais prioridade, o estômago ronca, os intestinos doem, procuro dormir, antes não conseguia, mas agora acostumei.

O costume é algo surpreendente, quantas pessoas são chatas com a limpeza de suas casas, outras pessoas tem nojo até em pegar em dinheiro, as pessoas arrumam suas manias de acordo com o seu mundinho, de acordo com sua "realeza", seu reino, mas quando tudo desaba, hummmm.

Quando tudo deixa de ser como era, então a realidade é outra, sem salário, sem moral, sem nada, a higiene não é mais a coisa importante, a higiene não existe mais, o importante agora é sobreviver e sonhar, até que os sonhos sejam parte de tudo, quando a respiração deixa de existir e o corpo deixa de ter vida.

As preocupações são metas de acordo com o que vive, a saúde só existe quando há dinheiro, Deus é um ser que foi criado pelo homem para não se sentir só no Universo, ou pelo "medo" de quando morrer não ter para onde ir, a morte é o fim, tudo acaba, nada existe além do horizonte, tudo isso foi criado porque o homem não consegue admitir que tudo realmente acaba.

O sofrimento não é só meu, existem mais iguais à mim.

Mas falo de mim, os outros são os outros, a cruz que temos que carregar são de pesos diferentes, mas o sofrimento é igual.

Hoje comi bem, apareceu comida lipa e saudável, comi tanto que fui pro meu "canto", encontrei um pouco e desmaiei, literalmente, aquele alimento bem temperado, saudável alimentou meu corpo e a fraqueza de não ter o que comer foi embora, o alívio foi tanto que o sono foi profundo, até demais.



Infelizmente isso não ocorre todo dia, infelizmente as coisas não são como queria que fosse.

O que incomoda muito é o fato de que as pessoas nem sequer me notam, e se eu fosse "bem sucedido" tudo seria diferente.

O valor não está no caráter, nem na moral, nem em nada, apenas no dinheiro, riquezas materiais.

A prova é o que acontece no mundo, tudo está um caos.

As pessoas compram seus produtos pensando se o valor deles poderá cair muito ou se pretenderem vender no futuro será viável.

As pessoas não compram um produto para se beneficiarem dele e usarem para seu proveito, mas pensando em negociar mais tarde.



As coisas são assim, muito triste.

Não consigo ser mais assim, não suporto mais isso, não ser notado, não ser lembrado e não ser ninguém, e ninguém faz nada para que eu possa reerguer, ninguém faz algo para que minha moral volte, um emprego, uma vida, um sonho, uma ilusão, não aguento mais, tenho que para, ficar em um lugar e esperar o mundo girar.

Um mundo sem carinho, sem Amor, sem Paz, sem nada a oferecer, exceto se houver o Poder Material envolvido.

Obrigado a tudo, obrigado a nada, devemos ser nobres e pensar que um dia tudo acaba...



Estou só, invisível, instável e vulnerável a propostas foras da lei, tudo isso por um bom prato d comida, um pão, um bolo, alimento para meu corpo.

Sou invisível, sou um parasita, mas sou um humano em busca de algo que possa fortalecer o que meus sonhos sonham...

A vida corrói, destrói, glorifica e destrói, só destrói...

Fico aqui, sentado, parado, desolado, procurando uma saída, pois alimentos são importantes, mas nem só alimentos devemos ter, devemos ter um ritmo, uma rotina, um trabalho, uma dignidade e deixarmos a solidão seguir outro caminho.

Quero Amar, casar e ter filhos, mas, tenho 52 anos, ainda é possível?

Esse sonho está se distanciando a cada ano...

Para esquecer tudo isso, dormir é o melhor remédio, assim a vida passa, tudo passa, os caminhos deixam de existir e percebo que assim como o Ar, também vou deixar de existir...



A existência é pra poucos, somente os poderosos vivem, os fracos rastejam assim como eu, vulnerável ao relento, maltratado por todos e ignorado por muitos.

Só queria ter minha vida reconhecida, queria que me ouvissem e se fizessem entender, gostaria de caminhar, cumprimentar e ser cumprimentado.

Queria deixar de ser invisível.

A Paz não existe para mim, a dor vem e vai, o frio já não dói como antes, meus ossos estão acostumados com o gelo que a vida me proporcionou.

Vou dormir, esperando nunca mais acordar...



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