segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

As Face de uma vida

Estava a caminho de algum lugar.

Quando o sol queimava feito brasa, percorri um caminho ao qual parecia não ter fim.

Era minha vida começando nos idos de 1964, noite fria e chuvosa do mês de julho.

Hoje, 2016, 26 de dezembro, parece que foi ontem.

Mas o que parece que foi ontem?

Foi eterno.

A eternidade só existe aos que penetram no sombrio lar da infinita incorrência.

A percepção do óbvio não se aplica à monotonia de uma vida, de um Marasmo onde a Melancolia persiste e insiste...

52 anos e nada parece ter mudado.

Um levantamento triste.

O acaso de tudo que poderia ser diferente.

O cansaço de respirar.

A vontade de adormecer e somente sonhar.

O real nunca me pertenceu, nada parece compor meus passos, nada desenha minha visão, tudo se corrompe ao Metabolismo da Morte.

Viver é um fato, sonhar é uma realidade.

Estou aqui.

Estou sentado há horas, tentando encontrar uma saída.

A saída não existe, tudo trancado.

Meu destino traçado.

A casa parece cair aos pedaços, tudo deteriorando, estou aqui...

Ouvindo as velhas canções melancólicas de Roberto Carlos...

Meu nome nada significa, um vento que passa, uma nuvem que se desfaz...

Sem moral, sem nexo, desempregado há mais de três anos, que futuro há nisso?

Sem forças para lutar, derrotado, aniquilado, humilhado, motivo de risos, motivos de críticas, nada mais me abala, nada mais muda minha posição, meu peito dói, meu coração quer parar, minhas veias parecem negar o curso do rio vermelho...

Nada mais me conforta, nada me anima, nada mais posso construir...

O que fazer?

Esperar o dia chegar, a luz apagar, os olhos fecharem, os sons cessarem, tudo deixará de existir...

Espero esse dia...

Mas o dia não chega, fico noites sem dormir, aguardando acontecer, nada acontece...

O sofrimento corrói, dói e machuca o ego mais profundo, criando estranhas fantasias de morte, mas só são fantasias, pois após a morte não existe nada, apenas dormimos e nada mais.

Mas "ela" não chega com seu abraço fatal, melancólico e cruel.

A suavidade de um sono profundo é o que espero e nada mais que isso...

Estou aqui, o calor não é tão intenso, parece que vai chover, faz três dias que não saio de casa, uma casa escura, mal dá pra saber se é de dia ou de noite...

Se chover é bom, o calor me deixa sufocante, onde o clima é pior que o deserto do Saara.

Planalto Central, nasci no lugar errado, época errada, tudo errado.

Sem acreditar em nada, sem nada a temer, tudo se mostra como deveria ser.

Jesus, Deus, tudo uma farsa para que não tenhamos que desesperar...

As coisas se tornam cruéis quando nada mais há de se fazer, nada mais posso fazer.

O emprego traz moral, o trabalho dignifica e constrói, sem trabalho o homem se torna um lixo, sem moral, sem dignidade, sem forças para ficar de pé...

Sem emprego a dignidade é consumida como um câncer...

Tudo parece ruir, nada mais parece mudar, nada muda, nada cresce, nada parece evoluir, tudo para num tempo, agora é só recordação.

Os pássaros, as brisas matinais, o crepúsculo, nada mais faz sentido.

As sombras da vida, a vida dentro da vida.

A moral envaidecida cai, perante o desemprego.

Em minha posição, onde fui criado e incentivado a crer que o trabalho é o que fortifica, constrói, estar desempregado é como ter um câncer, uma doença mortal, sem volta, sem cura, só perdendo a força e caindo ao abismo da desilusão.

Não consigo ler Carlos Drummond de Andrade e nem ouvir as modas de viola que me recordavam os bons tempos onde ia para o interior de Minas, fazia serviços com lidas de animais, Gado, Boiadas, Carros de Boi e essas coisas.

Tudo parece ter fugido de mim, nem saudades tenho mais, nem nada me comove, nada me muda, uma rocha bruta, é isso que sou agora.

Sem razão, nem alívio e nem perdão, nada me transparece, nada me aquece, nada alegra e nem entristece.

Uma rocha, pedra bruta, esperando o tempo passar.

As nuvens não são as mesmas, nada é a mesma coisa, não quero saber do mundo, sem rádio e nem televisão, não quero saber das coisas da vida.

Só me resta esperar.

"Se tudo que se move, se tudo que se vê, florescesse dentro de um indivíduo, como a flor de uma árvore, anunciando que ali haverá fruto, se tudo isso fosse importante para as pessoas, o mundo também seria diferente."
                                                (LUCAOVNI)

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