segunda-feira, 27 de março de 2017

Diálogo Além da Fogueira

Certa vez, numa rodinha à beira de uma frande fogueira, algumas pessoas, conhecidas, outras não, comentavam sobre o valor da amizade e do diálogo entre amigos e desconhecidos, o quão é importante.

Depois de ouvir quase todos com seus argumentos e observações, ninguém notou aquele homem, calado e observador, atento ao que se passava ali.

Após ouvir as indagações e suposições, este homem pediu para falar, ele queria contar uma história, que com certeza deveria ser ouvida por toda a humanidade.

Ele contou que certa vez, havia um rapaz, que apesar de ter mais de cincoenta anos, o considerava um rapaz.

Seu nome não importa, o importante é o que houve com ele e o que ele havia passado de tão amargo.

Esse rapaz, em toda sua vida, procurou um diálogo com alguém, mas tinha que ser alguém que o ouvisse e respeitasse suas palavras.

Em toda a vida, o rapaz nada conseguiu, ninguém parava e ouvia o qua tinha para dizer.

Após quarenta e nove anos encontrou uma mulher, para ele era a mais linda de todas, pois ela o ouvia quase sempre.

Quando se passou um pouco mais de dois anos, quando a união já estava em estado conjugal, o rapaz que vivia um sonho que almejava tanto em sua vida, desmoronou.

Sua amada disse que não o queria mais junto a ela.

Ela era a única pessoa que o compreendia, que ele "achava" que era para sempre.

Então a separação ocorreu.

Ele voltou a falar só, voltou a conviver com o seu "Eu" solitário e calado.

Apareceram algumas mulheres, mas ele só tinha olhos para aquela que o ouvia, só tinha vida para ela, tudo para ele era ela.

Então, após três anos de separação, o rapaz começou a "acordar" para a realidade em que vivia.



Se trancou dentro de si mesmo e esqueceu de vez que um dia foi feliz com a mulher amada.

Hoje ela tem outro, vivem juntos e certamente nunca o amou como deveria.

Esse rapaz vive numa solidão sem fim, mas não com lágrimas, agora com perspectivas, sem razão e sem solidão dentro de si.

Vive num mundo "robótico", sem sentimentos, sem compreensão e sem coração.

O verdadeiro "homem de pedra", que espera o dia em que partirá desse mundo e com a partida, alcançar outros mundo, sem lamentações, sem desenganos e sem solidão.

Vive por viver, um dia após o outro, sem sonhos, sem desejos e sem amor.

Ele vive porque seu corpo ainda vive, mas por dentro há uma estátua, sem vida, sem nada a fazer, sem nada a temer e apenas isso.

Os parentes, certamente nunca estiveram ao seu lado, pois ele, desempregado, vivendo às custas de pequenos serviços e doações, não espera nada da vida e nem de ninguém.

O que será que esse rapaz tem guardado dentro de si?

Quais histórias teria pra contar?

O que ele sabe?

Será que as pessoas aprenderiam com suas palavras?

Bom, ele é apenas um rapaz e só.

O homem finalizou o que tinha a dizer, se levantou, despediu e saiu da roda, na fogueira, seus passos lentos e tristes nem sequer ecoaram, desaparecendo em uma trilha escura, no parque onde estavam.

Essa fogueira era nos arredores de uma cidade em algum lugar desse planeta.

As pessoas se calaram ao ver esse homem desaparecer na escuridão.

Ninguém mais conseguiu dizer algo, apagaram a fogueira e voltaram para suas casas.

Será que o "rapaz" era esse homem?

Porque ninguém perguntou a ele?

Porque o silêncio falou mais alto no momento de reflexão e dúvida.

Esse homem nunca mais foi visto nas redondezas, desapareceu como a luz do dia e o frio da noite.

Assim como muitos, assim como nós, sempre temos algo a dizer, seja em momentos difíceis ou em momentos de pura alegria, mas sempre há o que falar...

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